31 de jan. de 2012

Cão Torto

     Demasiado nervosismo... Rubras vibrantes, viscosas, brilhavam com a luz que atravessara a janela pelos pequenos furos na cortina. As gotas. Enfeitavam o caminho entre a sala, a cozinha e o banheiro. Um impulso... Poucos segundos...  Quais seriam as palavras apropriadas? Apenas adjetivos roucos, grotescos, apavorantes. Dizeres que filhos não costumam proferir a seus pais. O sangue vivo de uma existência morta. Seu nome era Cão. Assim o conheciam. Só quem foi ao batizado sabia o verdadeiro. Não abanava o rabo. Era orgulhoso. Fazia o corre, andava pelo certo. Naquele dia, foi diferente. Caminhou em direção ao banheiro. Lavou a faca sob a torrente fria do chuveiro. Fez uma oração... Começara mal o traçado de seu destino. Riscado do mapa. O sonho do sumiço. Era o seu desejo desde sempre, fortalecido naquelas horas impassíveis. Executou o padrasto violento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...