18 de ago. de 2013

zona da mata

Anoitecia.
Entre pirilampos,
a mão do menino
caçando estrelas. 
Aranha tecendo teia. 
Mundo cheirando chuva. 
Avó espiando da varanda.
Barulho na mata. Onça? 
Saci montado no redemoinho. 
Café e bolo de fubá. 
O fim das brincadeiras. 
Anoitecia.

Sociais

Disse o poeta, num tempo distante:
“Não faças versos sobre acontecimentos.”
Não. Não faremos, não. Porque nasce um sol diferente a cada dia, continuaremos contando nossas lorotas, sem versar, quando ocasiões se fizerem oportunas. Motivos para divertidas chacotas em sextas-feiras de bar. Abraços, animados encontros de ombros, notícias, futebol, paixões, cinema e amizade em tardes possíveis. Uma banda indie cuja vocalista de cabelos coloridos, segura um megafone e canta uma canção antiga com arranjo de música eletrônica; talvez um show assim, quem sabe, com nossos valiosos amigos, dividindo nossas preciosas banalidades. Era uma vez um menino de 17 anos, olhos claros e calmos, comendo a pipoca do Giannotti - aquela com queijo provolone - num canto do saguão daquela sinuosa faculdade.

ponto de ônibus

relato de um breve reencontro com um jovem trabalhador…
 lindo de ver
afastando-se na pista
tão puro o sorriso
a perder de vista
o aceno de Narciso
- Lembra de mim? gesticula
toda vida luta
todo dia labuta
Certa vez, foi assim:
um falou, outro escutou
conselho de professor
sonho virou meta
melhorar a condição,
a obra do artista


Viagens

Mãe, a mais sábia dos seres viventes, não pode ser contrariada. Tanto disse que enfiei o pé na jaca e comprei em infindáveis prestações uma máquina de lavar. Mãe choramingando pelos cantos. Levando a mesma vida amarga de sempre. Nem parece ter nome de flor. Reclama dos filhos que não lhe dão merecida atenção. E viaja entre as três direções do sudeste que mais lhe encantam. Ignora o mais lindo do Rio, que não continua. Alegra-se na Baixada. Tardes domingueiras de churrasco com tio Onofre. A sobrinha voltando do batidão funkeiro. Em Minas, menos Bicas, mais Juiz de Fora. Dona Conceição mudou-se para o Rio facilitando as coisas para a filha flor. Visitas esporádicas à tia Graça, sua cunhada, solitária em um cantinho das Gerais. Destino sempre certeiro é o Vale do Paraíba. Na Dutra, faz o sinal da cruz. Ironicamente, meu pai se deu ao trabalho de levar-me, ainda bebê, para ser batizado na Basílica. Eu, batizado na mais importante construção católica do país, a Basílica de Aparecida. Ideia tonta do velho. No interior paulista, cuida do neto. A composição do menino loiro de olhos azuis no colo da avó preta. Impressionista. Enquanto esfrego minhas roupas no tanque (porque a máquina de lavar chegará no próximo sábado), penso nisso e naquilo. Minha companheira e meus filhos adolescentes. Meu retorno ao apartamento do Jaguaré. Paz para escrever, estudar, preparar aulas, cozinhar, lavar, passar, arrumar e pensar. Solidão, silêncio, serenidade e saudade. Sanidade.

CONFLITO DE GERAÇÕES

Não sei o que faz
Nem você sabe o que faço
Enquanto o tempo passa
Uma praga
Uma traça
Que tudo consome
Tudo gasta
Na obrigação que afasta
E você não reclama
Jogado à cama
Admirando seus erros
E os pelos que crescem
Em seu corpo
Enquanto curvo-me
Às chantagens da vida
É assim que fingimos angústia
E obliteramos nossa saudade
Um do outro
Não quero mais beber
E quer começar
Descobrindo coisas
Que não me interessam
Mais.

Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...