palavras, narrativas, emoções, sensações, visões, contações sobre os caminhos no mundo e os encontros das vidas
16 de mai. de 2012
A rara flor
O botânico não tocou a rara flor. Não poderia arrancá-la. Estranhou como uma espécie magnífica e tão singular sobrevivera soberana naquele local sombrio e insalubre. Chorou após desatar o lenço que cobria seu rosto e o protegia da nevasca. Respirou profundamente. Guardou aquele perfume numa gaveta secreta de sua memória. Desceu a montanha, triste, esquecido de si mesmo, passos vagarosos atrás do guia local.
14 de mai. de 2012
Instante da Criação!
Um átimo de segundo. A porrada bem dada no meio das ideias. Sem tempo para recuperar o fôlego. Desmaio.
12 de mai. de 2012
Histórias curtas da Vila.
1.
Dia desses
fugirei. Igual menino travesso. Depois da traquinagem mal feita. Aquela que se
descobre logo.
2.
A mãe socorre
o filho. Sangue que escorre da fronte. Pedrada de molecagem.
3.
Depois do
futebol no campinho do terreno baldio, atrás da fábrica, a tubaína no armazém da
dona Júlia e a visão das pernocas de sua neta são a alegria da cambada.
4.
Coisas boas
acontecem. Também acontecem coisas ruins. E tudo fica bem no final.
pai e filho
nasceu.
naquele instante
eu não saberia dizer
quem?
eu?
ele?
ele?
apenas sorri.
era quase meio-dia
e chorei
de indiscreta
alegria.
tempo
correu.
foi
tempo
correu.
foi
crescendo
devagarinho
quem?
talvez
eu
ou
ele
?
?
11 de mai. de 2012
Alto da Glória
Todas as noites,
no meu caminho
de volta ao lar,
uma esquina,
uma janela,
a luz acesa,
a cabeça branca,
o vampiro insone
burilando papéis.
O nascimento
de mais um
conto.
no meu caminho
de volta ao lar,
uma esquina,
uma janela,
a luz acesa,
a cabeça branca,
o vampiro insone
burilando papéis.
O nascimento
de mais um
conto.
Uma história de Taboão da Serra
Foi numa distante manhã de sábado. Estava determinado. Ainda não tinha a autorização para dirigir o carro da empresa. Pedi ao Cícero, "o véio Cição", para me levar ao lugar, se fosse com o saudoso e inesquecível Luiz Martins, o intrépido "Galocha", teríamos parado em algum canto para molhar os beiços e esquentar a garganta. Então chegamos à casa simples, rua de terra, periferia de um Taboão já periférico. Bati palmas. Ele apareceu. Sorridente, curioso. Fiquei emocionado. Derramando lágrimas, dei logo um abraço no homem que nem me conhecia. Me convidou para entrar em sua "goma". Cara, tinha um cinema dentro da casa, singelo, lindo. A transformação da sucata em sonho. Foi me contando sua história, mostrou, sobre uma mesinha, o retrato da Carla Camuratti, da ocasião em que lhe fez uma visita. Exibiu os equipamentos que ele mesmo inventa para fazer tantas coisas como emendar filmes que ele encontra jogados no lixo. Juro, se o Spielberg aparecesse em casa não traria consigo emoção maior. Já faz algum tempo, eu conheci o Cine Tupi do guerreiro Zagatti.
3 de mai. de 2012
No corredor da madrugada.
Paira tristeza no tempo agora. No centro de um estrangulamento das idéias. Supostos pensamentos de concisão. Dançam em bailada balbúrdia. Soluções imediatas. Seu desejo. Mas não. São frases sufocadas. Pipocam em sua cabeça. Não existem, porém, resoluções sensatas. Ele corre no interior dos seus sonhos. Metafísica diabólica. E alimenta suas angústias com distrações industrializadas. Porcarias em sacos de plástico, embaladas a vácuo, confessa. E busca cerveja na geladeira. Bebe... "Bebo. Bebo. Bebo." Bêbado.
segredo.
segredo.
sou.
quem?
o que sou...
soube.
uma fresta
da porta
entreaberta.
o segredo
guardado.
talvez...
quase...
verdade?
vazei.
em silêncio.
chorei.
na esquina.
calado.
sou.
quem?
o que sou...
soube.
uma fresta
da porta
entreaberta.
o segredo
guardado.
talvez...
quase...
verdade?
vazei.
em silêncio.
chorei.
na esquina.
calado.
2 de mai. de 2012
Infância em Pindamonhangaba.
- Geraldinho, pare de fazer careta no espelho! Vá brincar no quintal! A goiabeira está carregada, meu filho!
Mas o menino prefere ficar empoleirado na cerca, feito pássaro bicudo e colorido a exibir-se, admirando os chuchus.
Mas o menino prefere ficar empoleirado na cerca, feito pássaro bicudo e colorido a exibir-se, admirando os chuchus.
Esquecimentos.
Esqueci!
Hoje, eu esqueci.
Simples.
Esqueci meus documentos.
Esqueci meu dinheiro.
Esqueci meus compromissos.
Esqueci das contas a pagar.
Esqueci o horário do trabalho.
Esqueci o trabalho...
Mandei às favas quem me repreendeu.
Estava vadiando pelo centro da cidade.
Queria lembrar quem eu era.
Retornei a pé para casa.
Esqueci as chaves do carro
em algum lugar... Esquecido.
Atravessei dezenas de bairros.
Cumprimentei gente desconhecida.
- Boa tarde! Eu disse ao cavalo.
- Como tem passado? Perguntei
ao motoboy, equilibrista imóvel, no farol,
indiferente ao caos das ruas,
preocupado com a segunda jornada,
na pizzaria.
Míseros trocados da noite.
Minha opinião. Plausível, pensei.
No lar, tranqüilo, lembrei.
Meu final de semana com as crianças.
A geladeira estava vazia.
Altamiro Cirino.
Hoje, eu esqueci.
Simples.
Esqueci meus documentos.
Esqueci meu dinheiro.
Esqueci meus compromissos.
Esqueci das contas a pagar.
Esqueci o horário do trabalho.
Esqueci o trabalho...
Mandei às favas quem me repreendeu.
Estava vadiando pelo centro da cidade.
Queria lembrar quem eu era.
Retornei a pé para casa.
Esqueci as chaves do carro
em algum lugar... Esquecido.
Atravessei dezenas de bairros.
Cumprimentei gente desconhecida.
- Boa tarde! Eu disse ao cavalo.
- Como tem passado? Perguntei
ao motoboy, equilibrista imóvel, no farol,
indiferente ao caos das ruas,
preocupado com a segunda jornada,
na pizzaria.
Míseros trocados da noite.
Minha opinião. Plausível, pensei.
No lar, tranqüilo, lembrei.
Meu final de semana com as crianças.
A geladeira estava vazia.
Altamiro Cirino.
Linha Novena
Saindo da Federal, voltando para casa. Um ônibus parado em frente ao "sinaleiro" vermelho. O nome da linha é Novena. Um colega que também é forasteiro pergunta se há algum bairro com esse nome na cidade. Alguém responde negativamente e conclui: "Nunca ouviu falar do ônibus da linha Novena? Só passa às quartas-feiras. Dia inteiro de reza na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, local do ponto final."
1 de mai. de 2012
1º de maio.
Eurípedes foi um daqueles sujeitos folclóricos que conheci em uma das tantas esquinas tortas de minha vida. Eu tinha dezessete anos. Trabalhávamos
numa pequena gráfica. Ele, um ex-metalúrgico, começou muito cedo, sua
militância política numa comunidade eclesial de base. Na pequena oficina, todos os dias eram de riso
e história, muita história. Quando chegou o primeiro de maio, convidou-me para
conhecer a sua Vila Prudente. Lá, eu, ele e sua companheira, almoçamos e fomos
para São Bernardo. Naquela tarde, o barbudo discursava. Eu já me habituara à
sua eloquência típica. Lembro-me bem de 1982, alguns anos antes. Eu era um menino, cursava a
terceira série do ensino fundamental e o torneiro mecânico, candidato ao
governo de São Paulo, aparecia na tevê e despertava-me o interesse e a
curiosidade. A campanha eleitoral no vídeo era diferente. Apenas a foto e a
legenda. Bastava. Bastava a barba.
Assinar:
Postagens (Atom)
Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...
-
comecei aos poucos empertigado nesse estado de intensa letargia perdido em meus confusos movimentos paralisado em meus sentimentos
-
Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...
-
Anoitecia. Entre pirilampos, a mão do menino caçando estrelas. Aranha tecendo teia. Mundo cheirando chuva. Avó espiando da varanda. Barul...