30 de jun. de 2012

Perdido e achados

Um ano após o enterro da mãe, encorajou-se. Foi à velha casa. Lá encontrou o inesperado. Uma caixa repleta de brinquedos. Seus brinquedos. Guardados. Preservados. Uns quarenta anos de esquecimento. Achou seu pião companheiro. Antigas lembranças rodopiaram no quintal. A beleza do bonito. O menino e suas coisas. Girando. As coisas de menino.

Causa e consequência

Faca no peito. Ainda viu a causa, distraída, dobrar a esquina. A consequência chegou tardia; com sua surda sirene, suas cegas luzes.

Coragem

ameaçou tirar lasca. titubeou. hesitante, botou o pé prá fora. é de graça mesmo... o mundão de portas arrebentadas. agora é só correria.

Presente

Do vestido? Inocência gostou não. Gostou foi depois. Do lençol desarranjado na cama.

26 de jun. de 2012

TRABALHO

TRABALHO: palavra cuspida da boca do castigador quando pousa sua pesada mão sobre o ombro resignado de um sonho de asas alquebradas.

22 de jun. de 2012

Professora Monica


Claudinei apaixonou-se pelas palavras precocemente. Aos seis anos, recitava versos para sua prima Ritinha. Para a avó, declamava com vigor e esperava solene, à entrada da cozinha, caprichados doces caseiros como forma de agradecimento. Aos oito, era leitor notívago de Júlio Verne e Monteiro Lobato. Debaixo do travesseiro, encontravam-se costumeiramente, a lanterna, presente do avô André, e um livro. Quando completou sete anos, ganhou do pai, um livro de contos do Machado. Terminada a leitura do exemplar, disse, “Esse Machado tira onda com a cara dos outros, gostei!“ O pai soltou uma gargalhada admirada. No último natal, ganhou uma coletânea de poesias do Manoel de Barros. Entendeu, enfim, como acontece às palavras, de desaguarem da cabeça de uma pessoa. Na escola, está no sexto ano. Jandira, sua professora de História, encantou-se com suas leituras dramatizadas das Cruzadas. Ele recria batalhas, inventa cavaleiros apaixonados, perdidos entre a Europa e a Ásia. Professora Jandira recomendou-lhe que procurasse a professora Monica, de Língua Portuguesa, do sétimo e oitavo anos. A tal professora coordena uma oficina de criação literária e orienta um pequeno grupo de alunos da escola. O menino não pensou muito. Deixou um bilhete pendurado no mural de recados da secretaria. A professora respondeu rápido, durante um intervalo; pregou outro papel ao lado do bilhete do menino, pedindo-lhe que comparecesse, após as aulas do dia seguinte, à sala onde ocorreria a dita oficina. E lá foi o menino, sonhando em compartilhar ideias e enriquecer histórias. Ao chegar, avistou a professora Monique e um grupo de estudantes concentrados em suas tarefas. De cara amarrada, perguntou quem era o garoto que prontamente disse seu nome. “Ah, tá”, disse a professora Monica, “o que você quer conversar comigo?” completou. Claudinei, confuso, explicou, novamente, tudo o que escrevera no bilhete. “Tá bom, garoto. Vá à secretaria, preencha uma ficha e aguarde meu contato”. O menino saiu pensativo e desconfiado: “Eu apenas queria conversar, falar do meu prazer em ler, contar algumas histórias. A professora Monica nem me escutou direito”. Ligou para sua mãe e lhe disse que voltaria para casa a pé. Para consertar seus pensamentos. 

20 de jun. de 2012

Sereia


Frio de trincar os ossos. Estava bem agasalhado, escondido naquela esquisita capa de chuva que tomei emprestada do tio Sebastião.
- Tá preparado prá mergulhar?
A pergunta soou estranha à beira daquele rio. A vara de pescar rija, tensa, tão difícil de empunhar. Eu tentava.  O risco de aprender a aventurar-se.

Joca


Joca, um cara de onze anos que conheço bem. Língua solta, imaginação fluída, argumentação consistente, pensamento rápido e articulado. Anárquico, carnavalesco, turrão, teimoso. Pensei no maestro Villa Lobos. Durante a Semana de Arte Moderna de 1922, o regente entrou de chinelos no Teatro Municipal para um de seus concertos. Muitos acharam o gesto revolucionário. O sujeito, porém, apenas alegou um problema de saúde. Joca, em seu mais perfeito estado físico e mental, certamente entraria descalço, vestindo calças curtas e deixaria constrangido qualquer um que se atrevesse a criticá-lo. Um gesto revolucionário? Não. Simplesmente, a simplicidade. "Eu sou assim, não posso obrigar ninguém a gostar de mim". Todos gostam. Impossível não se encantar com a personagem. Essa tira do Calvin ilustra de maneira exemplar, nossa tempestuosa, tensa e afetuosa relação.







19 de jun. de 2012

Profissão: Nômade.

Na tevê, um filme norueguês.
- Pai.
- Diga, Joca...
- Com certeza conhecerei a Noruega.
- Sério?
- Claro. E também a Índia, a Indonésia, as Ilhas Seychelles, o Butão e outros lugares.
- E qual será a sua profissão?
- Isso lá é importante? Só sei que serei um nômade.

17 de jun. de 2012

Saber - (se)


A vida. Uma viagem. Absoluta ou absurda? O nome. Escolhido por alguém que conheceremos, ou não. Acostumar-se. Dia após dia. Sorte. Azar. Pessoas. Bilhões de caminhos. Algumas rodovias floridas. Muitas estradas lúgubres. Destino. Quando a escolha começa? Tradições e expressões inventadas. Vontades alheias. Religiões. Deus. Deuses. Dúvidas. Força ou confiança? Medo. Escurecer é sempre mistério. O sol asteca (re)nasceu. “Uma nova chance para dominar-te, natureza”. Motivação, ética do sacrifício...  - Mundo - É certo e sabido que não é dado a todos conhecê-lo integralmente. Há, em cada canto, encantos, recantos. Cada homem e cada mulher; velho ou criança. Universos em paralelo. Emparedados. Rompendo muros. Construindo pontes. Riquezas circunscritas, incontornáveis. Porque todos se conhecem. Ninguém conhece ninguém. A cada um, sua existência. Sua história. Glórias. Decepções. Tolices. Persiste o estranho hábito de ler jornais em bancos de praça em ruínas. Outrora, ouvia-se rádio; suas transmissões belicosas, suas canções nostálgicas. Agora, opiniões espalham-se eletronicamente; rápido, desapareceram os sintomas de arrependimento. A ventania renovadora com suas máquinas envenenadas, novos modos de agir diferentes ou comuns, iludem o tempo, trapaceiam o espaço. É incomum o modo como tudo muda? Não. Porém, certas coisas nunca se modificam. O nó na garganta, o aperto no peito.  A saudade. Poderosa dor silenciosa.

16 de jun. de 2012

plataforma da estação

Na plataforma da estação,
argumentos incoerentes,
dizes, com convicção.
Embora tu sintas
a aproximação da saudade,
mentes, reclusa em pensamentos.
Momentos de absurda confusão,
quando querer não é saber,
dever é morrer. Sim e não.
Escolhas tão aleatórias?
Hesitação. Erros de juventude.
Idiota. Eu. Aguardarei.
Teu retorno.
Na plataforma da estação.

14 de jun. de 2012

Travessia e discussão


Não me diga o que fazer
Esmagando-me de culpa
Seus dias não são meus
Exceto quando me escuta
A porta de sua vida
Aberta com gentileza
Sua mão estendida
Levanta do chão
Meu corpo triste
São como dois faróis
Seus olhos clareando
Saídas de emergência
Corremos desembestados
Imersos na escuridão.

4 de jun. de 2012

calçada de bar

todos os livros que li explicaram-me muitas coisas. mas não disseram tudo. fui escolarizado pelas ruas. suas esquinas enriqueceram-me com certas manias de dias úteis, conversas de copos à mesa, tira-gosto e afogamento de mágoas após o expediente. todos os fins de tarde foram de pensamento. a mente nunca descansa. ah, a mente...

3 de jun. de 2012

poeminha mineiro

Todas as noites, escureço.
Deixo de ser carne; esqueço.
Inquieta, flutua minh’alma,
E entre estrelas vagueia,
Desconfiada e calma.

1 de jun. de 2012

Totonha (um conto de Marcelino Freire)

Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso.
Deixa pra gente que é moço. Gente que tem ainda vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba?
O governo me dê o dinheiro da feira. O dente o presidente. E o vale-doce e o vale-lingüiça. Quero ser bem ignorante. Aprender com o vento, ta me entendendo? Demente como um mosquito. Na bosta ali, da cabrita. Que ninguém respeita mais a bosta do que eu. A química.
Tem coisa mais bonita? A geografia do rio mesmo seco, mesmo esculhambado? O risco da poeira? O pó da água? Hein? O que eu vou fazer com essa cartilha? Número?
Só para o prefeito dizer que valeu a pena o esforço? Tem esforço mais esforço que o meu esforço? Todo dia, há tanto tempo, nesse esquecimento. Acordando com o sol. Tem melhor bê-á-bá? Assoletrar se a chuva vem? Se não vem?
Morrer, já sei. Comer, também. De vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira é só uma coceira, não uma doença. Tenha santa paciência!
Será que eu preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?
No papel, sou menos ninguém do que aqui, no Vale do Jequitinhonha. Pelo menos aqui todo mundo me conhece. Grita, apelida. Vem me chamar de Totonha. Quase não mudo de roupa, quase não mudo de lugar. Sou sempre a mesma pessoa. Que voa.
Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo de linguagem superior. Deus que me ensinou. Só quero que me deixem sozinha. Eu e minha língua, sim, que só passarinho entende, entende?
Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever.
Ah, não vou.

Regadio

A intensidade do abraço. Aconteceu quando Dona Margarida foi surpreendida pela chuva. Sem abrigo na Xavier de Toledo, apertou Pedro para si e juntou João, o menino das caretas engraçadas. Ficaram inertes, colados, no ponto de ônibus descoberto. Completamente encharcados. E ninguém ficou doente.

Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...