28 de abr. de 2013

OS NOMES


Quisera, agora,
repartir com você
todos os trabalhos
e os dias.
Sei — e como dói
só o saber nesta hora —
os nomes que me confundiam
quando a cabeça
estava mergulhada em livros.
O alicate
A torquês
A chave de fenda
A lima
A máquina
para esticar
arame farpado
Quisera retirar do paiol
todas as ferramentas.
O alfanje
A enxada
A foice
A cavadeira
O enxadão
O serrote
O cepilho
Quisera ser de novo
o filho que engraxaria
os seus sapatos
e os deixaria
na escada do alpendre
sob o sol da manhã.
Escovados,
lustrosos
para a missa de domingo.

Donizete Galvão

Na rua

Passadas largas,
nervosas, apressadas.
A esquina estreita-se
entre a banca de jornal
e a barraca do ambulante.
Uma senhora abre
seu guarda-chuva.
O caminhar se acalma.
A vida não precisa correr.

Frank

Ano após ano, ainda
sou meu maior inimigo,
enfrentando a luta desigual
de um corpo e muitas almas.
Sou a criatura petrificada
numa prisão existencial.

Pedrinho

Apenas colo e carinho, 
entre as escuras horas
de todas as noites. 
O azul dos seus olhinhos
enquanto não dorme. 
Pouca claridade
e os zumbidos da rua. 
Quem escondeu a Lua? 
A mansidão da sua respiração. 
O cheiro dos seus cabelos. 
Minha tranquilidade desconhecida.
Um mar de saudade.
Se já falasse, diria:
Pai! Esqueça a guerra!
Amanhã é outro dia.
Tudo isso já passou.
E ainda arde em meu coração.

Bicicleta dobrável


Eu tinha uma bicicleta. Ele chegou com a magrelinha, nem sei como conseguiu trazê-la. Nas costas? Usada. Negócio bom com algum amigo do açougue.  Engraçado. Todas as coisas que tive eram diferentes. Nada daquilo que imaginava. Nem de longe. Era dobrável. Um detalhe fora de moda. Era o tempo de bicicross. A molecada assistiu E.T. no cinema - eu não. Um amigo meu, da rua e da escola, ganhou uma bike novinha, de marca, Calói. As rodas eram iradas. Cara, coisa de playboy. Mas eu fiquei contente com a minha. Era branquinha, velha.  Meu pai me presenteou com a maior boa vontade. Era aquilo ou nada. Faz tempo que aconteceu.

25 de abr. de 2013

Conflito de gerações



Não sei o que faz
Nem você sabe o que faço
Enquanto o tempo passa
Uma praga
Uma traça
Que tudo consome
E você não reclama
Jogado à cama
Admirando seus erros
E os pelos que crescem
Em seu corpo
Enquanto curvo-me
Às chantagens da vida
É assim que encenamos angústia
E obliteramos nossa saudade
Um do outro
Não quero mais beber
E você quer começar...
Descobrindo coisas
Que não me interessam
Mais.

10 de abr. de 2013

DRUM


Pedras pedras pedras pedras
Que carreguei no percurso
De minha vida
Guardadas
No bolsos do agasalho
Esquecidas
Sabê-lo agora
Perdidas
Sim
Talvez eu me perca
Nas lembranças
De um poema
Que não escreverei
Sobre memórias
Que não tive
Enquanto esmorecia
Nas horas de trabalho
Árduo
Resistindo
Protegendo a chama
De minha existência
Mínima
Acumulando pedras

7 de abr. de 2013

Atemporal

Apenas colo e carinho, 
entre as escuras horas
de todas as noites. 
A cor dos seus olhinhos
enquanto não dorme. 
Pouca claridade
e os zumbidos da rua. 
Quem escondeu a Lua? 
A mansidão da sua respiração. 
O cheiro dos seus cabelos. 
Minha tranquilidade desconhecida. 
Um mar de saudade.
Se já falasse, diria: 
Pai! Esqueça a guerra! 
Amanhã é outro dia. 
Tudo isso já passou. 
Ainda arde em meu coração.

2 de abr. de 2013

Vida Noturna

Antes de ser contaminado por procedimentos normativos da vida cotidiana, o sujeito usará a cama de um modo anárquico, despojado, ainda que, ingênuo, distraído e automático. Logo, aprenderá a regra, o horário, a postura. Descansará geometricamente sobre o leito, cabeça no travesseiro, talvez, alguma dobra de perna, mas o digno respeito ao ritual de apagamento do dia, a entrega total à noite. Logo crescerá e, consciente de alguns de seu atos, disponível para a rebeldia, tentará burlar a disciplina, arrumará cúmplices. Descobrirá novos hábitos noturnos. Até que um dia, alguém amansará seu coração. Aprenderá a dividir o tal retângulo do descanso e do amor e iniciará um novo tempo protocolar.

Desconcerto

Claudinei, conte-me histórias
sobre cinema, sobre a musa
do expressionismo alemão,
o retrato de Louise Brooks
guardado no bolso da jaqueta,
reprodução em preto e branco,
ou diga-me um poema chileno
enquanto sangramos o desejo 
de vinho tinto sacolejando o ABC
de nossas dúvidas eternizadas,
no próximo trem a caminho
de Diadema.

Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...