29 de dez. de 2011

Viagem.

             Tem jeito de auto-exílio. Mas não é. Também não é o fim de uma longa jornada. Talvez um recomeço. Afinal, com tantas experiências acumuladas, chegara a hora de testar limites. Saudade, palavra antiga, sempre usual. As lembranças, as pessoas, as canções, as imagens, as palavras, consagradas ou não, manchando folhas de toda qualidade de papel. São as coisas que carregamos debaixo de nosso braço existencial e gritam quando necessitamos anunciar nossa angústia; e sussurram nossa paz após derramarmos lágrimas nostálgicas. A estrada é tão menos caminho do que símbolo. É ruptura. Desconstrução. Passagem secreta. Do outro lado, o destino; ponto de chegada. Não é o novo mundo. Nele, há esperança, repleta de jovialidade. A imprudência permitida. A vontade de aprender. São como os meninos subindo nas árvores, pelejando na cancha de areia ou grama, o bate-bola moleque, dedilhando em seus violões, riffs de rock ou trilhas de desenhos animados. Boniteza...

Ana e João

Samba... Violão.
A Madrinha canta,
O Afilhado toca.
O Apartamento lamenta
não ser Morro.

Para Demetrius.

sem lume. disperso na rodovia. centenas de caminhões. dezenas de ônibus. alguns carros. de repente. olhos no mato. flutuando. o bichinho que acende. que apaga. que acende. que apaga. que acende. que apaga...

Futi

Sempre gostei de futebol. Porém, o futebol oficial, dos estádios, verdade seja dita, nunca me fascinou. Eu queria as histórias. Eu gostava de ler as colunas esportivas. A literatura futebolística dos anos 80. Solene, evocativa. Sempre relembrando os feitos de 58, 62 e 70. Ou mitificando uma grande variedade de futebolistas tão peculiares, com suas pérolas verborrágicas, suas vidas erráticas, suas tragédias quase gregas. Mas, ir a uma partida nunca me atraiu. Muito menos o futebol televisionado. Já o rádio me cativava pela presença de seus verdadeiros craques, os narradores. O futebol que eu amava e ainda amo era o futebol de rua, tão único, hoje, tão raro. A brincadeira, sem pretensões. Riscar o asfalto com um pedaço de tijolo. Nada de Bebeto, Romário, Alemão, Branco, Dunga e outros fantasmas que as vezes ganham Copas. Eu via Binha, Kalil, Dentinho, Reginaldo, Pereba, Juninho, Rafinha, meninos e seus sonhos, e sua bola, e suas topadas de dedão do pé na calçada. Hoje percebi que ainda aprecio a brincadeira. Nem tanto uma brincadeira, a febre das escolinhas. Existe a esperança da profissionalização, contudo, ali, paira o brilho no olhar e a vontade e a fome despertados pela redonda. Pela manhã, eu vi um garoto chamado Léo. Alegre, fanfarrão, falastrão, marrento; e como joga! Fôlego. Cada gol engavetado... E joga na zaga, e joga no meio, e arma, e chuta no buraco da coruja, e pega no gol na falta do arqueiro. Moleque danado! E ainda xinga o juiz e leva cartão e chora no banco. Futebol, uma paixão.

Tentativa de interpretação

Sólido amarelo
Preso à borda,
Inescapável escapista.
Tenso na superfície,
Jazz no improvável limite.
Sua pureza lenitiva
Afronta a sobriedade,
Retorce a imaginação.
Prático e pragmático,
Noturno ou vespertino.
Para alguns encorajados
Assoberba mesquinhas manhãs.
Não serve aos apressados;
Não convém bebericá-lo.
Basta a iluminação espumante,
Irrisória e translúcida,
Momentânea e incompleta
Do pseudo objeto contemplativo.

Jú Filmes

Amanheceu. Fui hipnotizado pela caixa mágica. Chaplin e Keaton, Luzes da Ribalta. Deu prá pegar a cena clássica e o final. Não vou me empolgar. Já vi o filme, mas não ao lado da Juju. O tio comentarista chato relatando curiosidades para a sobrinha entediada. Não contarei a história da obra do gênio. Quem me conhece sabe que isso sempre acontece. Jorginho Elias, Zé, Fran, Claudinei, entre outros tantos sofredores desse meu hábito sublime e horrível já me censuraram inúmeras vezes. Ok. Logo em seguida começa um documentário no mesmo canal. Juju não se anima; quer zapear. Temos um compromisso. Vou me arrumar. Volto à sala. Temos que sair. De repente, percebo a menina paralisada, atenta às imagens do equilibrista que atravessou as torres gêmeas através de um cabo de aço.

21 de dez. de 2011

Desorientação

Dispersivamente, imagino a possibilidade da derrota. Lembra-se quando atravessamos o canal a nado? Papai nos alertara do perigo. Ainda que o medo ameaçasse nossas intenções, mergulhamos. Durante a qualificação do doutorado tive as mesmas sensações. Escravos que somos do legado intelectual de gerações que nos empurram arbitrariamente para frente, reproduzimos o calafrio, o constrangimento consensual das convenções. Mas não admitimos.
Meu concorrido orientador, acadêmico reverenciado, com indisfarçavel desleixo, leu meu trabalho. Macaco velho, treinado, capaz de apresentar surpreendentes digressões com apenas três ou quatro palavras retiradas a esmo de uma página, feriu-me mortalmente com seus argumentos diante dos demais membros da banca. Ao final, fomos tomar café em sua sala. Elogiou-me cinicamente mencionando meus acertos de caráter bibliográfico. Pediu-me que retornasse na segunda-feira seguinte para corrigirmos detalhes metodológicos da pesquisa. Disse que estava demasiadamente atarefado, situação que não lhe permitiu uma leitura atenta do texto.  Antes que pudesse se despedir, ofereceu-me uma carona. Eu, que estava a pé, aceitei prontamente. Ao entrar em seu carro, observei a fantasia no banco de trás. Percebeu e explicou-me que iria a um baile na noite seguinte. Vestido de Napoleão Bonaparte.

15 de dez. de 2011

Despedida.

Despedida. Carro imbicado na saída da garagem. O homem viveu uma vida inteira naquela cidade. Ali casou. Teve seus filhos. As crianças, a esposa, as malas. Todos e tudo. Organizados no interior do automóvel. O velho se aproxima. Vê seu filho mudar a expressão da face. Olhos marejados. Também enternecido, estende seus braços. Os corpos juntos apertam-se fundindo seus corações em segundos. Lágrimas contidas. Respiração lenta, profunda. Novo fôlego. O Homem entra no carro. Motor ligado. Adeus. Por que? A firma cresceu. Mudança.

Tecno pião

Rodopia. É pião? Perguntei. Tem fieira não... Massa! Irado! Falei. O menino disse: "Tô fazendo coleção. Tem bit chip, anel de ataque, disco de peso, engrenagem giratória e base laminada. Dá prá modificar e fazer fusão entre os modelos." "Coisa de japonês". Pensei e fiquei com saudade dos tempos em que meu pai trazia aqueles objetos cônicos de madeira com ponta de metal. Quando o fio arrebentava, eu corria prá comprar barbante na papelaria Santa Rita.

Lugares de SP que me farão falta:

TABACARIA. Mergulho na infância e na adolescência. Encontros mágicos com meia dúzia de malucos que você conheceu antes da explosão hormonal (durante também).

CHARM (Parece que os caras tão mudando de bar; qualquer um, naquela quadra da Augusta, vale). Reduto dos remanescentes de um grupo especial de sonhadores que frequentou a FFLCH entre 1991 e 1996. Mais os agregados. Afinal, eu, que comecei como agregado, não posso deixar de valorizar essa capacidade de receber e abrigar novos camaradas.
CASA DA DIANA E DO ZÉ/TRIVIAL. O início e o fim da História. O meio, a teimosia, a retomada, a persistência também. Ninguém acreditava. Mas a geração continua firme e junta. Ano que vem: 15 anos. A eternidade da História.
CAPPF/FEUSP. Todo C.A. é uma espécie de corredor polonês bivolt. Um lugar de passagem. Tem a época do carinho. Tem a época da porrada. Eu cheguei meio cansado, velho de guerra, menos capaz que muito moleque barbudo e cabeludo. Porém, não neguei a guerra. Mas, minha cabeça tava longe. Minha hora não era mais aquela. Meu lugar era outro. Eu já tinha me lascado antes. Mas, foi bom ver a rapaziada se engajando, aprendendo no erro, tentando acertar. A luta fica mais acirrada do "lado de fora". Uma experiência importante. Recomendo. Principalmente quando tá no sangue, fervilhando...
TABOÃO DA SERRA (A PERIFERIA, A FAVELA, A LUTA). Saudade das vielas, dos becos, das pessoas, personagens, sobreviventes. Saudades do sonho de quem vive à beira do córrego. De cada trecho de esgoto a céu aberto que encanamos. De cada cafezinho tomado nos barracos; das reuniões; de cada cavalete que trouxe o bem mais valioso e imprescindível para famílias com quase nada. Saudade do Guelo, do Bahia, do Severino da retro, do Raimundinho, dos caras do Escritório, do Maurão, de todos sem exceção.

3 de dez. de 2011

Notas

Tomar uma decisão. Tarefa difícil. Reinventar-se. Alterar a rota. Mudar o caminho, completamente. Arriscar-se.  Sem medo. Perdoar. Compreender. Tolerar. Propor. Aceitar. (Com)partilhar.  Recomeçar.

Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...