20 de mar. de 2012

Começo de conto.

Por Luís, Celi, Claudio, Zé e Daniela.
De tão tímido que era, adotara a espontaneidade como posição política. O mundo é uma guerra, ele sabia. A solidão não era uma escolha. Era um dado da realidade, algo contra a qual ele lutava, em vão. Sua natureza era solitária, o que não se explicava por sua timidez, nem a acrescentava. Viver era solidão.
Lutava, sim, mas também preservava, de certo modo. Porque entendia que, solitários uns e outros, eram iguais. Ou senão, ao menos era uma igualdade possível. Por difícil e pontiaguda que fosse, como uma tosse persistente que podemos desejar.
Por isso, talvez, andasse pelas calçadas, relutante, evitando uma postura cabisbaixa. Em elevadores suava frio. Dores de estômago atacavam-no nas salas de espera. Imaginava se seria possível interromper seus odores em filas de banco e pontos de ônibus.
Evitava os olhares fortuitos e curiosos que tentavam decifrá-lo.. Ou, movido pela sua imaginação persecutória, achava que sempre haveria alguém disposto a virar sua alma do avesso. Para tanto, sempre tinha uma resposta, ou melhor, uma pergunta, na ponta da língua: “Pois não?”, que indagava em tom educado, mas imperativo. Não. Na verdade, nada dizia. Antes que as palavras se libertassem do seu pensamento e ganhassem forma, uma corrente elétrica atravessava sua medula espinhal, trazendo paralisia em seu maxilar, sua língua, seus dentes, impossibilitando a construção, mesmo que aleatória, de qualquer fonema. Se a solidão era sua prisão voluntária, o silêncio, o muro intransponível da qual não era possível saltar sem fraturar a imagem que fazia de si mesmo.
Pois sim, e nunca lhe ocorria que era preciso descer o lixo. Visitar a mãe no hospital, protelar o vencimento das contas.  
Escrevia. A compulsão à escrita não se lhe revelava apenas um mero exercício de permanência; antes um escoadouro pelo qual pudesse articular em possibilidades e desdobramentos as mazelas cotidianas, contendo-as fluidas entre-linhas, subtraindo da raiz do real qualquer caráter ameaçador ou emancipatório. Equacioná-las era preciso para não sucumbir ao naufrágio; e eis pois que à deriva assim vazava eus pelos dedos, ávidos a desatar nós improváveis. Dedos que hasteavam velas rotas e urdiam horizontes e singravam tão longíquos quanto uma nau desfeita em bambu verde. Dedos que redesenhavam um limite só seu, de contornos adúlteros, enquanto reconstituíam nos recônditos vãos da memória o último hiato de engasgo da esquina de há pouco. Um céu e mar de dedos assim como os das crianças que no intervalo entre sono e vigília imaginam infinitas as paralelas que se fundem à partir do encontro da parede com o teto, no travesseiro, esse epicentro da perda de fronteiras.  
Uma ou outra memória aspergida pelas contínuas metástases alcoólicas e uma dose violenta de irresponsabilidade e apatia permeavam sempre esse exercício de recomposição do entorno, exercício eterno, estéril. Naturalmente, estes eram apenas alguns dos muitos elementos que, associados à sua incapacidade de travar relações inter e supra-pessoais, constituíam uma constelação muito similar àquela que o compelia à compulsão em deitar letras e encadear palavras e atribuir significados endêmicos, personalíssimos, místicos – sempre com o cuidado de não fornecer as chaves. Perdia-se em conexões confortavelmente absurdas, consoante as adjacências. Embora nunca nada o eu vocálico além de um ‘Pois não, pergunto’, vingasse assim um calar compulsório, se fizesse pronunciar.
Onde queria chegar nunca soube, mas aquela passatempo tivera até agora sobre si um efeito sedativo e balsâmico. Uma via de expurgo para os Malebórgias que o assolavam rotineiramente. Era, enfim, uma espécie de exercício exorcista que teve um efeito curativo bastante eficiente até aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...