22 de jun. de 2012

Professora Monica


Claudinei apaixonou-se pelas palavras precocemente. Aos seis anos, recitava versos para sua prima Ritinha. Para a avó, declamava com vigor e esperava solene, à entrada da cozinha, caprichados doces caseiros como forma de agradecimento. Aos oito, era leitor notívago de Júlio Verne e Monteiro Lobato. Debaixo do travesseiro, encontravam-se costumeiramente, a lanterna, presente do avô André, e um livro. Quando completou sete anos, ganhou do pai, um livro de contos do Machado. Terminada a leitura do exemplar, disse, “Esse Machado tira onda com a cara dos outros, gostei!“ O pai soltou uma gargalhada admirada. No último natal, ganhou uma coletânea de poesias do Manoel de Barros. Entendeu, enfim, como acontece às palavras, de desaguarem da cabeça de uma pessoa. Na escola, está no sexto ano. Jandira, sua professora de História, encantou-se com suas leituras dramatizadas das Cruzadas. Ele recria batalhas, inventa cavaleiros apaixonados, perdidos entre a Europa e a Ásia. Professora Jandira recomendou-lhe que procurasse a professora Monica, de Língua Portuguesa, do sétimo e oitavo anos. A tal professora coordena uma oficina de criação literária e orienta um pequeno grupo de alunos da escola. O menino não pensou muito. Deixou um bilhete pendurado no mural de recados da secretaria. A professora respondeu rápido, durante um intervalo; pregou outro papel ao lado do bilhete do menino, pedindo-lhe que comparecesse, após as aulas do dia seguinte, à sala onde ocorreria a dita oficina. E lá foi o menino, sonhando em compartilhar ideias e enriquecer histórias. Ao chegar, avistou a professora Monique e um grupo de estudantes concentrados em suas tarefas. De cara amarrada, perguntou quem era o garoto que prontamente disse seu nome. “Ah, tá”, disse a professora Monica, “o que você quer conversar comigo?” completou. Claudinei, confuso, explicou, novamente, tudo o que escrevera no bilhete. “Tá bom, garoto. Vá à secretaria, preencha uma ficha e aguarde meu contato”. O menino saiu pensativo e desconfiado: “Eu apenas queria conversar, falar do meu prazer em ler, contar algumas histórias. A professora Monica nem me escutou direito”. Ligou para sua mãe e lhe disse que voltaria para casa a pé. Para consertar seus pensamentos. 

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