Claudinei
apaixonou-se pelas palavras precocemente. Aos seis anos, recitava versos para sua prima Ritinha. Para a avó, declamava com vigor e esperava solene, à
entrada da cozinha, caprichados doces caseiros como forma de agradecimento.
Aos oito, era leitor notívago de Júlio Verne e Monteiro Lobato. Debaixo do
travesseiro, encontravam-se costumeiramente, a lanterna, presente do avô André,
e um livro. Quando completou sete anos, ganhou do pai, um livro de contos do
Machado. Terminada a leitura do exemplar, disse, “Esse Machado tira onda com a
cara dos outros, gostei!“ O pai soltou uma gargalhada admirada. No último
natal, ganhou uma coletânea de poesias do Manoel de Barros. Entendeu, enfim,
como acontece às palavras, de desaguarem da cabeça de uma pessoa. Na escola,
está no sexto ano. Jandira, sua professora de História, encantou-se com suas
leituras dramatizadas das Cruzadas. Ele recria batalhas, inventa cavaleiros
apaixonados, perdidos entre a Europa e a Ásia. Professora Jandira recomendou-lhe
que procurasse a professora Monica, de Língua Portuguesa, do sétimo e oitavo
anos. A tal professora coordena uma oficina de criação literária e orienta um pequeno grupo de alunos da escola. O menino não pensou muito.
Deixou um bilhete pendurado no mural de recados da secretaria. A professora
respondeu rápido, durante um intervalo; pregou outro papel ao lado do
bilhete do menino, pedindo-lhe que comparecesse, após as aulas do dia seguinte,
à sala onde ocorreria a dita oficina. E lá foi o menino, sonhando em
compartilhar ideias e enriquecer histórias. Ao chegar, avistou a professora
Monique e um grupo de estudantes concentrados em suas tarefas. De cara amarrada,
perguntou quem era o garoto que prontamente disse seu nome. “Ah, tá”, disse a
professora Monica, “o que você quer conversar comigo?” completou.
Claudinei, confuso, explicou, novamente, tudo o que escrevera no bilhete. “Tá
bom, garoto. Vá à secretaria, preencha uma ficha e aguarde meu contato”. O
menino saiu pensativo e desconfiado: “Eu apenas queria conversar, falar do meu
prazer em ler, contar algumas histórias. A professora Monica nem me escutou
direito”. Ligou para sua mãe e lhe disse que voltaria para casa a pé. Para
consertar seus pensamentos.
palavras, narrativas, emoções, sensações, visões, contações sobre os caminhos no mundo e os encontros das vidas
22 de jun. de 2012
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