2 de jul. de 2012

Duas histórias

Dias antes de premeditar sua morte, o pai chamou o filho. Histórias antigas, rancores e tristezas emergiram. Voaram para longe. Percebera que sua loucura era busca por inocência e simplicidade. Sentia-se no topo da montanha. Tocando o céu. E o ar não era rarefeito. Respirava enchendo os pulmões. Reconciliava-se com a vida que levara. Porém, desejava interditar o próprio corpo. O menino escutava. Confissões. Sentenças. A compreensão do passado. Dias depois, a ausência que se pressentira. A partida do pai. Há sentido para a existência? A presença da dor. Aguda. Difícil de explicar. Noites longas e torpor. Descobre-se que é preciso sobreviver.
O menino nascera. Pequenina esperança. Encantamento. O bebê e sua delicadeza. Crescendo. Começou a sorrir. Dançar. Brincar. Surpreendeu. Mas não poderia ficar conosco. Veio para nos ensinar como são insignificantes nossas posses e desejos materiais; nossas vergonhas e pudores; nosso orgulho. E paralisou nossas línguas ferinas. Transformou em poesia nossas caminhadas à padaria, ao jornaleiro, à praça, à casa do vizinho. Tornou celestial cada ida à estrada, caminho de descoberta, de incerteza, tentativa, erro e acerto, conhecimento e amizade. Provou que todo médico, ou médica, comprometido com sua profissão, é apenas um ser humano, falível, que finge ser sólido como uma rocha, mas desaba em lágrimas, quando sozinho consigo mesmo, enxerga a vida e seu jogo de complexidades; caso contrário, não teria um coração batendo em seu peito. Séculos atrás, acreditava-se que o coração era uma fornalha. Hoje, sabemos o que é o coração. Ele é carne, mas também é sentimento, fé, nossos pensamentos desobedecendo à lógica. E bate enquanto olhamos o outro e buscamos compreensão, entendimento, conforto e apoio. Meses depois, a ausência que se temera. A partida do filho. Há sentido para a existência? A presença do amor. Agudo. Difícil de explicar. Noites longas e torpor. Descobre-se que é preciso sobreviver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...