8 de mar. de 2013

Ela

À mesa, enquanto almoçavam, nenhuma palavra dita. Nenhum elogio ao cardápio improvisado com alguns legumes e outras sobras congeladas. Sem comentários positivos sobre a carne de soja caprichosamente temperada. Ele ficaria tão feliz. Entenderia como uma adesão aos seus novos hábitos. Mas percebeu que os olhos dela estavam vermelhos. Uma mulher tão forte. Independente. Vitoriosa. Ele, sempre reclamando. Seus problemas, sua falta de dinheiro, seus sonhos e desejos profissionais, acadêmicos e pessoais. Mas ela desabou, mergulhada em seus velhos tormentos. A ausência de um afeto verdadeiro, legítimo, gratuito. Desconhecia. Depois de anos, ele entendeu. E descobriu que o maior defeito de um ser humano é não entender. Silenciou. Bastava escutá-la, acariciá-la, fazê-la dormir neste princípio de tarde, como faziam quando eram crianças, os dois irmãos. Então largou seus livros, os compromissos, as contas para pagar, neste dia difícil, para recomeçar amanhã.

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