O astronauta trabalhou concentrado anos a fio e esperou ansiosamente pela oportunidade de viajar para o espaço. Quando a chance, única para qualquer humano, restrita para poucos, lhe bateu nos ombros, olhou firme para si mesmo, sem espelho, como se isso fosse possível, e foi, porque quando fechamos os olhos, nos vemos inteiros, com todas as nossas arestas a aparar. Percebeu então, que sair da órbita de seu planeta não era uma tarefa pessoal tão importante. Deixou de ser, para ele que viajou pouco pelo mundo, muito pelos livros. Era um capricho social, uma ação probatória, mostrar que era capaz. Pensou em todos as pessoas que conheceu e amou até aquele instante. Uns por alguns minutos, outros por décadas sem fim. Lembrou-se da sua boa e generosa escuta e da vontade impraticável de estar com todos ao mesmo tempo. Um homem capaz de juntar a diversidade, rindo com operários no intervalo para o almoço, numa obra próxima ao Centro Espacial, entre fuligem, proteína, gordura e um aperitivo abrecaminhos para limpar a visão, amolecer o coração e lubrificar as ideias ou, apreciar por horas sem descanso, um eminente amigo professor engasgar com os percalços e rumos incompreensíveis de sua pesquisa sobre a organização estrutural das abelhas. Olhou para seu chefe atônito, que aguardava choro e resposta e que apenas ouviu "Muito obrigado. Pensarei a respeito". Lembrou-se das estrelas acumuladas nos bancos de escola, nas praças, bares, becos lúgubres, surpreendentes e amistosos de periferia, museus, casas de muitos avôs e avós e tios e tias, ruas e esquinas de tantos companheiros e companheiras. Tecnicamente, no último dia daquela volta insuportável em torno do sol, a verdadeira sabedoria, espontânea. Ele tinha uma galáxia pulsando em seu coração.
Claudio H. Ribeiro
palavras, narrativas, emoções, sensações, visões, contações sobre os caminhos no mundo e os encontros das vidas
1 de jan. de 2012
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