A esquina
mítica do Alto da Glória esconde um mistério. A custo, trafego pelo local. Angústia
que pesa dolorida e sufocante. Imagino coisas. O velho ainda mora lá? Quase
noventa anos. Vive sozinho? Não saber como funciona seu aparelho de
caraminholas, seus métodos, sua rotina. Toda esquina é um pouco mágica. É a voz
a perguntar, todos os dias: Qual caminho agora? A cruz que se impõe nas
quatro direções que aponta. Penso como seria o lixo daquele homem. Palavras que
jamais escreverei amassadas, rejeitadas, embrulhadas em sacos pretos. Conta-se
que o homem tira suas histórias das cruzadas que realiza pelo centro da cidade.
Sua esquina é o marco zero. Desliza ladeira abaixo para encontrar-se com o
exótico simulando-se coloquial. Com seu olhar de Clark, disfarçadamente, o
super-homem enxerga os sentimentos escondidos em corações dilacerados de
mulheres casadas; os desejos entorpecidos de religiosos sisudos; a maldade
recalcada de executivos bem sucedidos. Tantos outros personagens; profissões;
atribulações. Encontrar-me com o velho é um sonho que alimento vagarosamente.
Ideia abalada por aquecimentos e resfriamentos imprevisíveis; tal como o clima
desse lugar tão irregular. A livraria, na mesma rua onde fica a universidade, na calçada oposta, é um ponto de fuga, a primeira parada do velho, ou a última; dependerá do seu
ânimo, das suas intenções. Não quero incomodá-lo. Entendo agora, seu apreço
pela reclusão. Porém, ele pode. Jamais escreveu para garantir sua existência.
Tinha lá seus negócios de família. Também estudou em boa escola. Diplomou-se. É
doutor advogado que exerceu o ofício por poucos anos. Deliciou-se a vida inteira com a
máquina de escrever, agora computador - espécie de bateia -, peneirando as palavras certas, capazes de captar e traduzir a vida que se cozinha pelas ruas sóbrias e
sombrias de sua terra.
palavras, narrativas, emoções, sensações, visões, contações sobre os caminhos no mundo e os encontros das vidas
28 de jul. de 2012
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