28 de jul. de 2012

Ainda...


A esquina mítica do Alto da Glória esconde um mistério. A custo, trafego pelo local. Angústia que pesa dolorida e sufocante. Imagino coisas. O velho ainda mora lá? Quase noventa anos. Vive sozinho? Não saber como funciona seu aparelho de caraminholas, seus métodos, sua rotina. Toda esquina é um pouco mágica. É a voz a perguntar, todos os dias: Qual caminho agora? A cruz que se impõe nas quatro direções que aponta. Penso como seria o lixo daquele homem. Palavras que jamais escreverei amassadas, rejeitadas, embrulhadas em sacos pretos. Conta-se que o homem tira suas histórias das cruzadas que realiza pelo centro da cidade. Sua esquina é o marco zero. Desliza ladeira abaixo para encontrar-se com o exótico simulando-se coloquial. Com seu olhar de Clark, disfarçadamente, o super-homem enxerga os sentimentos escondidos em corações dilacerados de mulheres casadas; os desejos entorpecidos de religiosos sisudos; a maldade recalcada de executivos bem sucedidos. Tantos outros personagens; profissões; atribulações. Encontrar-me com o velho é um sonho que alimento vagarosamente. Ideia abalada por aquecimentos e resfriamentos imprevisíveis; tal como o clima desse lugar tão irregular. A livraria, na mesma rua onde fica  a universidade, na calçada oposta, é um ponto de fuga, a primeira parada do velho, ou a última; dependerá do seu ânimo, das suas intenções. Não quero incomodá-lo. Entendo agora, seu apreço pela reclusão. Porém, ele pode. Jamais escreveu para garantir sua existência. Tinha lá seus negócios de família. Também estudou em boa escola. Diplomou-se. É doutor advogado que exerceu o ofício por poucos anos. Deliciou-se a vida inteira com a máquina de escrever, agora computador - espécie de bateia -, peneirando as palavras certas, capazes de captar e traduzir a vida que se cozinha pelas ruas sóbrias e sombrias de sua terra.

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