Escrevo para não esquecer. Invariavelmente esqueço. Nunca me lembro de deixar lápis e papel próximos ao leito. Geralmente quando durmo gosto de deixar os problemas para a claridade natural do dia seguinte. Não adianta. Eles se tornam sonhos irreparáveis, irretocáveis, intocáveis. Tento alcança-los na grande profundidade de meu sono. Teatrais; comédias trágicas sem final nem começo. Sou um escafandrista no fundo do mar aguardando, enquanto meu barco é atacado por um navio desconhecido. Quando acordo no meio da madrugada, o medo encarrega-se de dominar-me completamente e me consome e quase não existo ali, beirando a cama, tão perto de encostar-me ao chão. E o mundo não existe. Há o meu silêncio, imagino. A escuridão rosna. E não é o medo. Descubro. E cubro-me. Ajeito-me para perto da parede. Minha cama no canto. Ali, alcançando a porta o criado mudo, gaveta entreaberta, pedaços de papel, palavras solitárias, escritas no passado mais distante, significaram algo no exato instante em que foram escritas. Não há explicação para elas no hoje. Adormeço sem ressentimentos, depois de algum esforço. Eis que me conforto no eterno retorno do sonho. Somos muitos quando sonhamos. Heróis e donzelas, dragões e arqueiros, balconistas e moradores de um bairro pacato. Ou loucos depravados em uma cidade dominada pela devassidão. Nunca somos nós mesmos. Perguntamos: a memória não é uma grande mentira? Redimimo-nos da realidade na extensão da noite. Nada nos afetará durante as próximas horas impessoais, quando somos gente sem propósito, desejosas de descanso. As lembranças são peças de quebra-cabeça forçosamente encaixadas enquanto a vida pausa horizontalmente desalgemada de seus sentidos.
palavras, narrativas, emoções, sensações, visões, contações sobre os caminhos no mundo e os encontros das vidas
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...
-
comecei aos poucos empertigado nesse estado de intensa letargia perdido em meus confusos movimentos paralisado em meus sentimentos
-
Anoitecia. Entre pirilampos, a mão do menino caçando estrelas. Aranha tecendo teia. Mundo cheirando chuva. Avó espiando da varanda. Barul...
-
Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...
Nenhum comentário:
Postar um comentário