Por todos e tantos motivos,
você. Tive um dia feliz. Lembrei-me do seu nascimento. Por quê? A caminho da
casa dos meninos esquecidos, a hipnose involuntária oferecida pela paisagem. As
araucárias, árvores cujo fascínio em mim despertado desviava minha atenção a cada
viagem realizada pelas estradas da província. Enxergava apenas sua estranha
beleza. A compreensão do belo, aliás, teve início para mim ali, durante o
trajeto. O pedaço de caminho desejava principiar uma explicação. Você cresceu.
Sou tão pequeno ao seu lado. Desconhecido, eu me senti, enquanto sua mãe sentia
as dores do parto. Você chegava. A trégua, a esperança. O silêncio para minhas inquietações.
O fim de minha juventude em desatino. Tão pouco e tudo. Você. Todos os dias são
de transformação. As dores não andam desacompanhadas de um pouco de alegria. A
coragem triunfa por alguns instantes e me vejo obrigado a reconhecer meus
passos em terras pantanosas. Então, o sorriso se alarga e enxergo-me vivo no
retrovisor do carro. O destino insiste e finalmente acontece. “Seu ofício é
ensinar”. E os garotos aguardam agitados, em roda, meu abraço amigo, minha
escuta atenta, meus movimentos bailados. Cada um seguirá o seu caminho e
carregará consigo as dúvidas e certezas que deixei. Nunca esquecerão as
agressões, humilhações, o terror. Doenças sociais. Mas agora estão bem.
Falávamos sobre beleza. Quem sabe o que é belo? Direi que poucos o sabem. Também
cresci para não saber. Porém, minha inaptidão para aceitar a imposição de
padrões alheios me fez voar. Minhas viagens pela alma humana, a maior de todas
as ilhas, fizeram-me enxergar o belo, sem rótulos, marcas, selos, certificados
e cifrões. Belo desprovido de imagens. Conhecimento, acolhimento, compreensão,
proteção e deleite. O perdão, a beleza e o despojamento, valores
incompreensíveis para nossa sociedade doente. Quando reconheci a verdadeira
beleza eu me perdoei e despojado de juízos e descalço de minhas frágeis
opiniões pisei o solo sagrado da simplicidade. Andar por todo canto é fazer
amigos. Porém, toda amizade é uma lembrança. Certeza, os meninos jamais serão
esquecidos enquanto existirem viajantes. Estamos sempre sozinhos viajando em
busca do encontro. E você, que será sempre meu filho, não importam as escolhas
e descobertas de nossas vidas, terá sempre a memória daquele afago em seus
cabelos, enquanto dorme e sonha novos dias.
palavras, narrativas, emoções, sensações, visões, contações sobre os caminhos no mundo e os encontros das vidas
10 de dez. de 2012
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Desmotivação, ausência de entusiasmo, tudo é tão cinza; o silêncio oblíquo ocupa nossa casa; certa preguiça, imobilidade. Mas a janela está ...
-
comecei aos poucos empertigado nesse estado de intensa letargia perdido em meus confusos movimentos paralisado em meus sentimentos
-
Anoitecia. Entre pirilampos, a mão do menino caçando estrelas. Aranha tecendo teia. Mundo cheirando chuva. Avó espiando da varanda. Barul...
-
Flanar pela cidade. Não ter compromisso. Tomar chá de sumiço. Andar sem necessidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário