10 de dez. de 2012

Dezembro


Por todos e tantos motivos, você. Tive um dia feliz. Lembrei-me do seu nascimento. Por quê? A caminho da casa dos meninos esquecidos, a hipnose involuntária oferecida pela paisagem. As araucárias, árvores cujo fascínio em mim despertado desviava minha atenção a cada viagem realizada pelas estradas da província. Enxergava apenas sua estranha beleza. A compreensão do belo, aliás, teve início para mim ali, durante o trajeto. O pedaço de caminho desejava principiar uma explicação. Você cresceu. Sou tão pequeno ao seu lado. Desconhecido, eu me senti, enquanto sua mãe sentia as dores do parto. Você chegava. A trégua, a esperança. O silêncio para minhas inquietações. O fim de minha juventude em desatino. Tão pouco e tudo. Você. Todos os dias são de transformação. As dores não andam desacompanhadas de um pouco de alegria. A coragem triunfa por alguns instantes e me vejo obrigado a reconhecer meus passos em terras pantanosas. Então, o sorriso se alarga e enxergo-me vivo no retrovisor do carro. O destino insiste e finalmente acontece. “Seu ofício é ensinar”. E os garotos aguardam agitados, em roda, meu abraço amigo, minha escuta atenta, meus movimentos bailados. Cada um seguirá o seu caminho e carregará consigo as dúvidas e certezas que deixei. Nunca esquecerão as agressões, humilhações, o terror. Doenças sociais. Mas agora estão bem. Falávamos sobre beleza. Quem sabe o que é belo? Direi que poucos o sabem. Também cresci para não saber. Porém, minha inaptidão para aceitar a imposição de padrões alheios me fez voar. Minhas viagens pela alma humana, a maior de todas as ilhas, fizeram-me enxergar o belo, sem rótulos, marcas, selos, certificados e cifrões. Belo desprovido de imagens. Conhecimento, acolhimento, compreensão, proteção e deleite. O perdão, a beleza e o despojamento, valores incompreensíveis para nossa sociedade doente. Quando reconheci a verdadeira beleza eu me perdoei e despojado de juízos e descalço de minhas frágeis opiniões pisei o solo sagrado da simplicidade. Andar por todo canto é fazer amigos. Porém, toda amizade é uma lembrança. Certeza, os meninos jamais serão esquecidos enquanto existirem viajantes. Estamos sempre sozinhos viajando em busca do encontro. E você, que será sempre meu filho, não importam as escolhas e descobertas de nossas vidas, terá sempre a memória daquele afago em seus cabelos, enquanto dorme e sonha novos dias.

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